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07/01/2015_15:00

por IGOR FIDALGO

Há um ingrediente intrigante nas esculturas do artista plástico Ron Mueck, cuja exposição com seus mais recentes trabalhos pode ser conferida até 22 de fevereiro na Pinacoteca de São Paulo. O ponto aqui não é minúcia dedicada pelo australiano para atingir a textura hiperrealista da pele humana em figuras que, se não estivessem em escalas subvertidas, poderiam passar por pessoas de carne e osso.

Há algo de enigmático no olhar e na expressão das nove obras que ocupam o museu paulistano — cujas imagens ilustram este post. Algo além daquela sensação de que estamos sendo observados.

É como se o escultor tivesse congelado pessoas reais em momentos decisivos de suas vidas e a alteração de escala entra para aferir sentimento de memória. Em entrevista ao jornal O Globo, a curadora de “Ron Mueck” explica que todos detalhes da maior obra da exposição (“Couple under a umbrella”, com três metros de altura) “falam sobre ficar velho, sobre estar junto, sobre ser pequeno”:

— Quando se é criança, as pessoas mais velhas parecem maiores do que são. Ao ver a escultura, recupera-se algo dessa sensação — declarou à jornalista Nani Rubin.

Para conseguir a textura sensível de pele, Mueck começa esculpindo em argila, depois cria moldes e passa a cobrir suas obras com camadas de silicone pigmentado para atingir a elasticidade mais próxima da realidade. Esta técnica está documentada no vídeo de quase uma hora “Still life: Ron Mueck at work”, que ocupa uma das salas da exposição e merece ser assistido. O silêncio da filmagem é proposital e pode ser usado como equiparação à concentração do artista para executar seus processos.

Segundo o repórter de arte da Folha, Silas Martí, algumas criações do artista chegam a levar 30 mil fios de cabelo. Que, pasmem, são implantados um a um.

É o caso de “Woman with shopping”, que congela o momento que uma mulher de olhar absorto, cujas mãos estão ocupadas carregando sacolas de supermercado, fita algo que lhe chama mais atenção do que o bebê que a observa por dentro de seu sobretudo. Os olhos inflamados insinuam que ela chorou e a pele ruborizada na região das maçãs e do nariz, combinada ao código do bebê salvaguardado no casaco, indicam que o clima está úmido, possivelmente chuvoso.

Esta subjetivação, no entanto, é corroborada pelo tamanho da obra: produzida com 1,13 metro de altura, a mulher e seu filho, embora tenham rugas e dobras sutilmente reais, são observadas de cima pelos expectadores. Difícil não se hipnotizar com todos os sentimentos que a obra imprime.

“Still life” é a escultura que você já deve ter visto muito na timeline de redes sociais. Na temporada carioca, o frango pendurado em um gancho, recém-depenado, serviu de fundo para selfies.

Ron Mueck trabalhava com ficção científica para o cinema e criando publicidades. Há pouco mais de 20 anos, começou a migrar para as artes visuais. Por isso, só produziu 47 obras.

Assistido por 200 mil pessoas no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, “Ron Mueck” também atraiu multidões em Paris e em Buenos Aires. Na abertura em São Paulo, recebeu mais de 2 mil.

Neste link, você fica por dentro da programação de férias montada pela Pinacoteca de São Paulo para o mês de janeiro. Já clicando aqui, você tem um aperitivo das obras do artista australiano filmadas pela TV Folha.

13/11/2014_17:39

Depois de um ano com nomes como os de Yayoi Kusama e Salvador Dalí, chegou a São Paulo a primeira exposição de Damien Hirst em terras brasileiras.

O polêmico artista plástico, conhecido por seus animais preservados em formol, traz à galeria paulistana uma obra completamente diferente daquela pela qual é lembrado.

Em sua nova série, Black Scalpel Cityscapes, o britânico apresenta mapas aéreos em P&B, construídos a partir de materiais cirúrgicos como pinças, tesouras e alicates dispostos estrategicamente num plano. A precisão de Damien é absolutamente impressionante e um olhar levemente desatento poderia confundir suas obras com fotografias.

Os fãs do artista podem inicialmente estranhar – sua arte geralmente é bem visceral e orgânica. Mas Damien fez questão de se explicar. É que, para ele, as vias de grandes cidades, como as de Londres e Rio de Janeiro, são tão vivas como um organismo vivo. Suas ruas são como veias, pulsando em constante movimento.

Além desta grande metáfora, a matéria-prima do novo trabalho – como  lâminas de barbear – estabelece uma relação complementar com seu antigo repertório representativo da via dúbia vida e morte. Intrigante, né?

E ainda temos boas notícias para quem não pretende visitar São Paulo tão cedo: a mostra fica aberta para visitação até dia 31 de janeiro. É para não perder mesmo!

08/08/2014_15:00

por MARIANA BUARQUE

Uma dupla de artistas surrealistas, que nunca se encontram mas aparecem juntos na histórica colagem que reproduzimos abaixo, aportou no Brasil em julho, acompanhado de outro pintor igualmente polêmico. É uma feliz coincidência: a maior retrospectiva do catalão Salvador Dalí acontece no Rio de Janeiro na mesma época em que a mostra de fotografias da mexicana Frida Kahlo é montada em Curitiba.

Em São Paulo, no entanto, são as gravuras de Francis Bacon, que por oito anos tiveram a autenticidade discutida (já que ele só pintava e o trabalho como desenhista foi mantido no anonimato), que chama atenção do povo das artes visuais.

Francis Bacon, um dos artista mais valorizados do século XX, ganha voz na exposição  “Italian Drawings”, que ocupa o  Paço das Artes, na USP. São 43 gravuras inéditas no País, selecionadas dentre as 350 que foram presenteadas ao namorado italiano, o jornalista Cristiano Lovatelli.

Como Bacon não tinha o hábito de desenhar, Lavatelli precisou lutar em juizo para comprovar que o seu acervo representava importante parte do espólio deixado pelo mestre do abstracionismo. A causa tramitou de 1996 a 2004, e foi graças ao advogado do jornalista, que ficou com Bacon até sua morte, que estas raríssimas ilustrações chegam até nós.

 

Quem mora em Curitiba atesta  que é uma oportunidade e tanto visitar a exposição “Frida Kahlo — As suas fotografias”, que não irá para outras cidades brasileiras. Está em cartaz no Museu Oscar Niemeyer (MON) o relato documental da vida e da obra da pintura mexicana, composto por 240 fac-símiles.

São fotografias íntimas encontradas na casa da artista, na Cidade do México, onde hoje funciona um museu.

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Os registros de Frida vão de sua infância à fase adulta, revelando ainda paixões, amizades e conflitos. Em destaque, está a relação da pintora com Diego Rivera e imagens que revelam amores com outros homens e mulheres.

Também são retratados o seu engajamento na luta política de esquerda e a relação dela com o próprio corpo, marcado por um acidente de trans (misto de ônibus e trem). Tais sequelas foram a marca da obra que tornou Frida a artífice das expressões mexicanas. 

E ainda dá tempo de conferir a mostra de Salvador Dalí no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), a mais completa já aberta no Brasil: são 150 obras expostas até 22 de setembro. Mesmo quem só conhece a fase surrealista do artista vai se surpreender, já que a mostra compreende a vasta trajetória do artista catalão que bebeu das fontes do cubismo, do impressionismo e da pintura abstrata.

Pensando no hype dos #selfies que tomaram de assalto as exposições brasileiras, a curadoria da mostra dedicou uma sala inteira no fim da exposição para que o público tire os seus autorretratos. O lugar é inspirador: a sala Mae West é composta por dois quadros com ilustrações de olhos, uma escultura em forma de nariz e o celebrado Sofá Bocca, mobiliário que vem sendo reproduzido pela indústria de decoração desde a criação de Dali, em 1936.

05/03/2012_03:22

Conhecida por muitos como a galeria que revolucionou o cenário da arte jovem no Brasil no começo dos anos 2000, a Choque Cultural na verdade é muito mais que isso.

Fomentadora e organizadora, a Choque não só vendeu e vende arte urbana, mas “criou situações de sustentabilidade para os artistas, para que eles conseguissem se manter produzindo e ampliassem sua produção”, nas palavras de Baixo Ribeiro, um dos donos da Choque junto com Mariana Pabst Martins (filha do grande pintor modernista Aldemir Martins) e de Eduardo Saretta, do coletivo SHN, que deu cara nova aos adesivos espalhados pela metrópole.

A invasão da arte urbana brasileira no circuito de arte internacional catapultada por eles foi resultado de um trabalho dos galeristas frente aos artistas não convencionais de como se posicionar no mundo da arte, em frente a um museu, a imprensa, ao publico e ao curador.

A família Choque vai muito mais além, como a parceria com uma das últimas gráficas paulistas a fabricar os Lambe-Lambe popularizados nas décadas de 70, 80 e 90. Os cartazes e livros especiais produzidos para a Choque, que usa a linguagem da tipografia como divulgação desde sempre, mantiveram viva a arte da Galeria Fidalga com sua oficina repleta de fontes rústicas e design inconfundível.

A Arte, a Música e a Moda agradecem.

Agora na Choque: Estado Do Sítio. Exposição Individual do Bijari.

Choque Cultural
Rua João Moura, 997, Vila Madalena, São Paulo
http://choquecultural.com.br/