Arquivo da tag: arte

31/01/2015_22:47

por IGOR FIDALGO

Está em cartaz na Casa Daros, no Rio de Janeiro, uma coletiva que discute interdisciplinarmente as fronteiras do olhar, do entendimento e da reflexão do espectador em relação à contemplação artística. “Ilusões” reúne obras de 11 artistas plásticos (quatro deles coatuam em dupla) da proeminente cena latino-americana, todos com algum estudo acerca da subjetividade do olhar ou da ressignificação do objeto.

Logo na entrada do museu, o público é recepcionado pela instalação mecânica do argentino Leandro Erlichj. “Piedras (from the wall)” (2003) é constituída por pegadas que emergem de um leito de seixos brancos por meio de um sistema programado, dando a impressão que um homem invisível está andando por ali. Na escolha desta obra para abrir a exposição, os curadores Hans-Michael Herzog e Katrin Steffen aguçam a capacidade do público de diferenciar o que significa realidade do que significa ilusão.

Leandro Erlich, que participou de um bate-papo com o público no dia em que Sala ELLUS esteve na Casa Daros, diz que suas obras são pensadas para serem ativadas pelo espectador.

“Realidade é um elemento infinto. Meus projetos têm a capacidade de evocar polissemia entre o público, criando interessantes conversas entre obra e espectador”, disse Erlich, que ainda completou: “Primeiro promovo a experiência de campo para que haja, em seguida, uma reflexão desta experiência. Gosto de explorar diferentes maneiras de olhar as coisas”.

Outras duas obras do artista argentino integram “Ilusões”. Em “Cambiadores”, de 2008 (acima), o espectador é confrontado a entrar num provador de roupas, com cortinas e espelhos bem tradicionais. Dentro, um inteligente jogo de espelhos reflete infinitamente a imagem de quem atravessa pelas molduras e portais falsos, tudo construído com um rigor matemático digno de um projeto de arquitetura.

A paixão pela arquitetura, inclusive, veio de berço: durante a palestra, Leandro Erlich contou que vem de uma família de urbanistas e designers de interiores e que, em vez de construir edifícios, preferiu construir histórias. O uso de espelhos, recurso muito explorado no seu trabalho e presente em “Cambiadores”, é uma forma de incitar o espectador à reflexão.

“Uso o reflexo para convidar as pessoas a questionar suas reflexões internas”, respondeu ele à uma pergunta feita por nós.

A terceira obra de Erlich presente na exposição (“Las puertas”, de 2004, foto acima) parece ter saído de um filme de David Lynch: um quarto escuro, com duas portas; debaixo delas, frestas de luz insinuam que o sol ilumina o outro cômodo. Nada disso: ao atravessarmos o portal, o feixe que saía da base da porta é desativado. Do outro lado, um quarto escuro. Qualquer semelhança com as cenas perturbadores de Laura Dern e Justin Theroux em “Impérios dos sonhos” (filme de Lynch oriundo de 2006) é mera coincidência.

Também participam de “Ilusões” o artista alemão radicado no Uruguai, Luis Camnitzer, que tem na escultura tipográfica “This is a mirror. You are a written sentence”, produzida entre 1966 e 1968 (acima), um de seus mais fortes manifestos. A frase funciona como um espelho; no entanto, em vez do reflexo de quem mira na obra, uma sentença irônica que resume a obviedade das atividades prosaicas do homem pós-moderno.

Em outra obra, Camnitzer questiona o conceito de arte. Depositados em sacos plásticos, os objetos mundanos de “Arbitrary objects and their titles” (1979) — tais como lente de óculos, rolha, papel amassado, prego, dado, plástico de embrulhar, pedaço de gorgorão, corrente e pedra, entre outros — aparecem presos na parede do espaço expositivo, devidamente etiquetados com títulos-cabeça. Seria aquilo tudo, de fato, arte ou somos nós quem classificamos como arte as imagens que consumimos?

Luis Camnitzer segue discutindo arte em “Two identical objects”, de 1981 (acima), onde equaliza uma nota de 1 dólar com um pedaço de jornal, ambos do mesmo tamanho e amassados. Cá o alemão indaga: a arte é digna de ser comprada com o dólar ou merece ser embrulhada no jornal? Vale dinheiro ou deve ser descartada? Qual dos dois objetos teria maior valor artístico enquanto ready made? Esta obra é arte?

Duas instalações utilizam o terno masculino como matéria-prima elementar. Mas é o rombo que atravessa os 270 trajes (formados por paletó e camisaria) de “Silence your eyes”, de 2012 (abaixo), da dupla espanhola Los Carpinteros, que é o elemento de contemplação. Fitando a instalação por um hemisfério, é possível estender o olhar por 16 metros, já que o buraco atravessa toda a estrutura da obra.

Em “O presságio seguinte (experiência sobre a visibilidade de uma substância dinâmica)” (2007), o carioca José Damasceno explora o seu já habitual trabalho de estudo da tensão com fios segurando as paredes de um ambiente. Nesta obra, no entanto, os fios saem de dentro de um manequim vestido com um costume completo, numa das obras mais memoráveis da exposição.

Ilusões videográficas são discutidas pelo mexicano Mauricio Alejo, que apresenta cinco trabalhos reproduzidos em sequência na parede de um recuo do museu (a Casa Daros ocupa um casarão neoclássico de 1866 formado por quatro estruturas geminadas). São vídeos de durações muito curtas, que retratam objetos de dia a dia em situações de transformação e transição (como a linha colorida escorrendo pelo ralo em Red”, de 2003, de longe o nosso preferido de Alejo).

Mas é a videoarte “Boca de tabla”, de 2007 (still acima), da mexicana Teresa Serrano, que mais chamou a nossa atenção. Filmado com exímia habilidade de execução, os planos retratam a solidão de uma mulher dentro de uma casa enorme. O som de seus passos é orquestrado com o abre-fecha de portas e janelas, da mesma forma que fumaça de um cigarro é remixada ao vapor de uma chaleira.

Com ecos de M.C. Escher, a protagonista sobe e desce a escadaria de madeira em loops que se sobrepõem. Parece enclausurada dentro de uma vida dolorosa e melancólica, e a casa, enquanto labirinto implacável de isolamento, parece ser um paradigma da videoartista mexicana para falar sobre o aprisionamento sofrido por quem está eclipsado por suas ideias.

Ficou curioso? “Ilusões” fica em cartaz por mais duas semanas. A Casa Daros fica em Botafogo, Zona Sul do Rio (Rua General Severiano, 159).

07/01/2015_15:00

por IGOR FIDALGO

Há um ingrediente intrigante nas esculturas do artista plástico Ron Mueck, cuja exposição com seus mais recentes trabalhos pode ser conferida até 22 de fevereiro na Pinacoteca de São Paulo. O ponto aqui não é minúcia dedicada pelo australiano para atingir a textura hiperrealista da pele humana em figuras que, se não estivessem em escalas subvertidas, poderiam passar por pessoas de carne e osso.

Há algo de enigmático no olhar e na expressão das nove obras que ocupam o museu paulistano — cujas imagens ilustram este post. Algo além daquela sensação de que estamos sendo observados.

É como se o escultor tivesse congelado pessoas reais em momentos decisivos de suas vidas e a alteração de escala entra para aferir sentimento de memória. Em entrevista ao jornal O Globo, a curadora de “Ron Mueck” explica que todos detalhes da maior obra da exposição (“Couple under a umbrella”, com três metros de altura) “falam sobre ficar velho, sobre estar junto, sobre ser pequeno”:

— Quando se é criança, as pessoas mais velhas parecem maiores do que são. Ao ver a escultura, recupera-se algo dessa sensação — declarou à jornalista Nani Rubin.

Para conseguir a textura sensível de pele, Mueck começa esculpindo em argila, depois cria moldes e passa a cobrir suas obras com camadas de silicone pigmentado para atingir a elasticidade mais próxima da realidade. Esta técnica está documentada no vídeo de quase uma hora “Still life: Ron Mueck at work”, que ocupa uma das salas da exposição e merece ser assistido. O silêncio da filmagem é proposital e pode ser usado como equiparação à concentração do artista para executar seus processos.

Segundo o repórter de arte da Folha, Silas Martí, algumas criações do artista chegam a levar 30 mil fios de cabelo. Que, pasmem, são implantados um a um.

É o caso de “Woman with shopping”, que congela o momento que uma mulher de olhar absorto, cujas mãos estão ocupadas carregando sacolas de supermercado, fita algo que lhe chama mais atenção do que o bebê que a observa por dentro de seu sobretudo. Os olhos inflamados insinuam que ela chorou e a pele ruborizada na região das maçãs e do nariz, combinada ao código do bebê salvaguardado no casaco, indicam que o clima está úmido, possivelmente chuvoso.

Esta subjetivação, no entanto, é corroborada pelo tamanho da obra: produzida com 1,13 metro de altura, a mulher e seu filho, embora tenham rugas e dobras sutilmente reais, são observadas de cima pelos expectadores. Difícil não se hipnotizar com todos os sentimentos que a obra imprime.

“Still life” é a escultura que você já deve ter visto muito na timeline de redes sociais. Na temporada carioca, o frango pendurado em um gancho, recém-depenado, serviu de fundo para selfies.

Ron Mueck trabalhava com ficção científica para o cinema e criando publicidades. Há pouco mais de 20 anos, começou a migrar para as artes visuais. Por isso, só produziu 47 obras.

Assistido por 200 mil pessoas no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, “Ron Mueck” também atraiu multidões em Paris e em Buenos Aires. Na abertura em São Paulo, recebeu mais de 2 mil.

Neste link, você fica por dentro da programação de férias montada pela Pinacoteca de São Paulo para o mês de janeiro. Já clicando aqui, você tem um aperitivo das obras do artista australiano filmadas pela TV Folha.

20/11/2014_20:00

por CAROLINA MENDES

A diretora de criação Adriana Bozon visitou três museus de arte contemporânea recentemente, e a Sala Ellus foi lá no seu instagram para saber o que não pode deixar de ser visto em cada um deles. Programe-se para visitar já!

1. Fundação Serralves

O museu fica no Porto, em Portugal, e é um dos mais notórios quando o assunto é arte contemporânea. A obra “Double Exposure”, de Dan Graham, é um pavilhão triangular de vidro que se pode entrar. O lado exterior é espelhado em duas das faces. Na terceira foi aplicada uma transparência a cores que reproduz a imagem da paisagem ao redor fotografada ao anoitecer num dia de primavera. Só entrando para saber o que se passa.

2. Guggenheim

Adriana também passou pelo Guggenheim de Bilbao, no País Basco. O projeto arquitetônico de Frank Gehry, por si só, já é arte pura, e o mega cachorro de flores do lado de fora, o Puppy de Jeff Koons, é ponto mundial de selfies. Dentro, não perca as instalações e esculturas de Richard Serra. (É impossível perder, mas só pra reforçar.)

3. Perez Museum

O museu é a nova sensação de Miami. Inaugurado em 2013 com projeto assinado pelo escritório de arquitetura premiado Herzog & De Meuron, ele tem obras de Roy Lichtenstein e, agora, uma exposição de Beatriz Milhazes. É o destino artsy do momento.

 

 

17/11/2014_14:41

por ALEXIA CHLAMTAC

Yves Saint Laurent foi tema de duas cinebiografias este ano: “Yves Saint Laurent”, lançada no começo do ano, e “Saint Laurent”, que estreou na semana passada. Essa última não foi autorizada, mas é a que melhor conta a vida do designer, tanto que foi indicada ao Oscar 2015 na categoria de melhor filme estrangeiro.

O longa, dirigido por Bertrand Bonello (“O Pornográfico”, 2001), faz um recorte histórico entre os anos 1967 a 1976, abordando a importância do legado do estilista francês nascido na Argélia.

De acordo com Bonello, a narrativa foi centrada entre o final dos anos 1960 e 1970 porque o período, além de ter sido uma época de efervescência cultural e política no mundo, representa o auge criativo de Saint Laurent.

O ator Gaspard Ulliel dá vida ao estilista, que se mostra um personagem fascinante e complexo, atormentado diante da fama e da fortuna, tentando sanar suas inseguranças através do abuso de drogas e álcool.

O filme não teve apoio de Pierre Bergé, companheiro e sócio de YSL por muitos anos, o que atrasou as filmagens e fez com que o filme sofresse reajuste. Entretanto, foi graças a esse fato que ele teve maior liberdade para escrever o roteiro como queria.

O longa-metragem conta ainda com a participação da atriz Léa Seydoux, que interpreta a grande musa do estilista, Loulou de la Falaise,; de Aymeline Valade interpretando sua amiga e modelo Betty Catroux; além de Jérémie Renier, que interpreta Pierre Bergé, e o ator Louis Garrel encenando a figura de Jacques de Bascher, um bon vivant que tinha um caso com o também estilista Karl Lagerfeld e por quem o designer se apaixonou nos anos 1970, levando-o a uma turbulenta separação de Bergé.

O passeio feito pelo diretor através da vida de sexo, drogas e alta-costura do estilista dá destaque às zonas de sombra da vida do personagem. O estilista, em estado melancólico, observa o apagar das luzes de um império que ele não representa mais.

13/11/2014_17:39

Depois de um ano com nomes como os de Yayoi Kusama e Salvador Dalí, chegou a São Paulo a primeira exposição de Damien Hirst em terras brasileiras.

O polêmico artista plástico, conhecido por seus animais preservados em formol, traz à galeria paulistana uma obra completamente diferente daquela pela qual é lembrado.

Em sua nova série, Black Scalpel Cityscapes, o britânico apresenta mapas aéreos em P&B, construídos a partir de materiais cirúrgicos como pinças, tesouras e alicates dispostos estrategicamente num plano. A precisão de Damien é absolutamente impressionante e um olhar levemente desatento poderia confundir suas obras com fotografias.

Os fãs do artista podem inicialmente estranhar – sua arte geralmente é bem visceral e orgânica. Mas Damien fez questão de se explicar. É que, para ele, as vias de grandes cidades, como as de Londres e Rio de Janeiro, são tão vivas como um organismo vivo. Suas ruas são como veias, pulsando em constante movimento.

Além desta grande metáfora, a matéria-prima do novo trabalho – como  lâminas de barbear – estabelece uma relação complementar com seu antigo repertório representativo da via dúbia vida e morte. Intrigante, né?

E ainda temos boas notícias para quem não pretende visitar São Paulo tão cedo: a mostra fica aberta para visitação até dia 31 de janeiro. É para não perder mesmo!